Associação São Lourenço

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Padres, missionários e crianças em reunião
Uma das principais maravilhas da caridade, um dos principais motivos, portanto, de praticá-la, é a de fazer assemelhar a Deus, a Cristo. Confere, com eles, singular identidade; ela diviniza e cristianiza; faz-nos abraçar os próprios modos de Deus e de Cristo (...) A caridade é, antes de tudo, amor de Deus, mas também, embora secundariamente, amor dos irmãos. A caridade tem, como caráter específico, unir, numa comunhão de amor divino, as pessoas divinas, angélicas e humanas. Nada podemos subtrair dessa totalidade de comunhões sem perder, ipso facto, toda a caridade. A caridade é “pléron”, plenitude.

E ainda:

(...) a caridade tem essencialmente Deus por objeto, e o nosso propósito é levar ao amor de Deus tantos cristãos que se arrasta pela vida, por não ter compreendido os dois mandamentos que são um só:“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as tuas forças e de todo o teu espírito, e ao teu próximo como a ti mesmo (Luc. 10,27; Marc. 12, 29-31; Mat. 22, 37-40). O segundo mandamento está contido no primeiro. A alma não é dividida por dois amores, mas unificada em seu amor por Deus que o leva a amar toda a humanidade.          

Os efeitos históricos da caridade cristã ilustram a seriedade com que trabalhos missionários foram feitos ao longo do tempo. No livro
Como a Igreja Católica Construiu a Civilização ocidental, o pesquisador Thomas Woods faz um levantamento das contribuições que a perspectiva cristã deixou de herança para nós ocidentais. Além de ter contribuído para o desenvolvimento da astronomia (ao ponto de diversas crateras da Lua terem nomes de padres jesuítas), a ciência econômica e jurídica, da invenção da Universidade, a Igreja Católica, diz o autor, introduziu de forma definitiva a concepção de caridade para com o próximo:

Como explica Guenter Risse, os cristãos ultrapassaram a “recíproca hospitalidade que prevalecia na antiga Grécia e as obrigações familiares dos romanos” para cuidarem de atender “grupos sociais marginalizados pela pobreza, doença e idade. No mesmo sentido, o historiador da medicina Fielding Garrison observa que, antes do nascimento de Cristo ‘o espírito com que se tratava a doença e o infortúnio não era o de compaixão, e cabe ao cristianismo o crédito pela solicitude em atender o sofrimento humano em larga escala.

Woods, no programa de televisão
Catholic Churche: Builder of a civilization reforça as afirmações  de Cuttaz e Lebret sobre a caridade:

Mas a caridade católica é, na verdade, maior do que as pessoas percebem. Por exemplo, é a qualidade da caridade, assim como a quantidade. Não é apenas que a Igreja Católica fez um monte de boas obras às pessoas. Mas é também o espírito que anima aquela caridade. A Igreja Católica ensinou que você deve ajudar alguém, não por que você espera uma recompensa, ou você ficará intimidando essa pessoas para sempre dizendo: ‘Você me deve! Se lembra que eu te ajudei há três anos e meio?’. E você não os ajuda para mostrar ao mundo a pessoa maravilhosa que você é. Você ajuda por que isso agrada a Deus, porque você respeita o ser humano próximo como feito à imagem e semelhança de Deus, e você sabe que a obra de caridade satisfaz a Ele.

Voltemos, pois, à definição da Comunità Cenacolo/Associação São Lourenço. Definida juridicamente como “setor não lucrativo”, e podendo ser definida  funcionalmente como “setor de caridade”, as pessoas que dela fazem parte carregam consigo – de forma mais ou menos clara e consciente – o conjunto de concepções antropológicas e teológicas acima descritas. Esse conjunto forma o “olho” com o qual elas enxergam-se a si mesmas, aos outros, e a existência.

Maurizio é enfático ao dizer que a Comunità não é uma instituição assistencialista – no sentido de oferecer apenas o abrigo, a comida, o médico e as roupas para as crianças e jovens. Reconhecendo a importância desses elementos materiais, ele explica que a Cenacolo vai além, e faz uma proposta de vida aos que lá ingressam. É uma proposta que exige disciplina, trabalho, partilha, simplicidade; proposta que é baseada nos princípios da humildade, da solidariedade, da verdade, e que as ensina a “dar valor às coisas que realmente têm valor”.

E o que tem valor para os cristãos é a pessoa, o irmão, o filho de Deus; que é responsável, livre, que peca e que tem a capacidade de se arrepender. Tem valor “amar o outro como a si mesmo” e como “Ele nos amou”, e se aproximar de Deus e dos irmãos.

“Nosso objetivo é formar, trabalhar em cima do coração dessas crianças. É fazer com que essas crianças, no dia em que saírem daqui, sejam pessoas honestas, sinceras. Pois antes de ser um bom profissional deve ser um bom homem. Mostramos que o importante não é acertar sempre, mas sim reconhecer os e próprios erros. A vitória é feita de muitas derrotas”, afirma Maurizio. E saliente: “Nós fazemos essa proposta séria, muito séria. Mas deixamos claro para eles que o portão está aberto, e em qualquer momento que eles queiram eles podem sair da instituição”.

Anos atrás um jovem toxicômano que ingressou na São Lourenço usou dessa prerrogativa, e saiu da comunidade. Seu corpo foi encontrado em uma vala alguns dias depois.

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