Associação São Lourenço

A "Guerra do Bem" da Comunità

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Apresentação teatral de membros
Luiz Felipe Adurens

Acordar às cinco, rezar na capela, preparar o café da manhã, servir as crianças e adolescentes; limpar e arrumar as casas, cuidar dos bebês e das crianças, orientar os adolescentes na realização das tarefas de casa e da escola, preparar o almoço, servi-lo aos adolescentes e às crianças; arrumarem-nas para a escola, colocá-las na condução; lavar roupa, colocá-la para secar, aparar o enorme gramado do sítio, concertar o que precisa ser concertado, construir o que precisa ser construído; ao final da tarde recepcionar as crianças e adolescentes, organizar o banho, preparar e servir o jantar...

A impressão de quem acompanha a rotina diária de um dos vinte missionários da Associação São Lourenço é a de que eles sempre têm algo para fazer. E de fato têm, afinal são 80 crianças e adolescentes que lá vivem e por eles são cuidados e educados. Mas quem são eles? De onde eles vêm?

A missão cristã   

“Se queres ser perfeito”, disse Jesus a um jovem que Lhe perguntou o que fazer para ser salvo, “vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”. E como o jovem dos Evangelhos, muitos, após ouvirem essas palavras,talvez fiquem tristes porque “têm muitos bens”. E muitos talvez chamem de loucos os que, seguindo fielmente as palavras de Jesus, abandonam pai, mãe, irmãos, amigos, carreira, país, cultura para dedicar-se 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano ao Próximo.

“Próximo” que chega a estar a uma distância de 10 mil km do país de origem do missionário. É o caso de Martina, executiva eslovaca que há sete meses vive na Associação São Lourenço, casa da Comunitá Cenácolo no Brasil que recebe crianças e adolescentes. Estas são levadas para lá em razão das mais variadas circunstâncias: abandono, violência, abuso, problemas com drogas. E é também em razão de várias circunstâncias que pessoas como Martina decidem não levar adiante a vida que levavam, mudando completamente o rumo de sua existência.

Uma coisa, no entanto, parece animar todos os homens e mulheres com quem conversamos ao longo da reportagem: a busca por um sentido na vida.

 “Sempre tive o sonho de ir a algum país mais pobre e ajudar as crianças. Não importava qual país. Mas quando cheguei à Associação, percebi que não estamos ajudando as crianças somente, estamos ajudando a nós mesmos. Por muitos anos vivi para mim mesma, no meu mundo, com as coisas que eu gostava, com meus hobbies, e agora eu tenho que me doar durante 24 horas, e isso não é fácil”, explica, sempre sorrindo, Martina.

Lucia Pizarro, argentina formada em Filosofia, e que vive na Associação desde dezembro de 2009, reconhece a dificuldade da vida missionária. Mas reconhece também a felicidade que dela advém. E afirma (também por entre sorrisos): “Aqui, percebo que temos muitas coisas para aprender, e que podemos estar muito felizes vivendo na simplicidade, nas pequenas coisas de todos os dias de uma família muito numerosa, e que fazendo todas essas pequenas coisas bem, dormimos muito cansados, mas também muito contentes”.

Marcelo Fernando, também argentino e que está no Brasil há dois anos, afirma, com um tom de voz brando: “Eu tinha uma namorada, uma família perfeita, fazia cursos, mas tinha um vazio no coração. A Comunitá me ensinou coisas que talvez o mundo lá fora não nos propõe : a amizade, a oração, o serviço, o sacrifício...O que chamamos ‘a guerra do bem’. E isso muda nossa personalidade. Nossa paz aumenta muito. Acredito que se doando, entregando a vida a Deus, respeitando a nossa vida e a vida das outras pessoas, aprendemos muito, crescemos muito espiritualmente. Eu me sinto muito realizado naquilo que estou fazendo”.A última vez que vi Fernando, ele estava construindo um minhocário onde, colocando esterco, restos de lixo orgânico e minhocas, os moradores da Associação São Lourenço fazem adubo para a horta que cultivam no sítio em Taiaçupeba.

Aprendizado, humildade e sacrifício parecem ser a tônica da vida missionária. E julgando pela quantidade de crianças que os chamam de pai e mãe, tio e tia, e pelo carinho fraterno com que os missionários se tratam, é difícil não lembrar do aviso de Jesus: “Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher; ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho que não receba cem vezes tanto já neste tempo, em casas, e irmãos,e irmãs, e mães, e filhos, e campos”.  

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